Conquista de Montese

Por Coronel Mateus Ribeiro



Lá fora fazia frio, uma temperatura em torno dos 10º celsius. Os brasileiros, acostumados com o clima tropical, estavam sentindo-se confortáveis depois de um inverno rigoroso que os pracinhas haviam passado, para a grande maioria tinha sido a primeira vez que viam neve.


Dentro do posto de comando de Castellucio, em Porretta Terme, os generais do IVº Corpo de Exército dos EUA, que a Força Expedicionária Brasileira fazia parte, discutiam sobre as notícias recém chegadas das tropas britânicas à leste. A ofensiva da primavera, que visava a ruptura da segunda linha defensiva alemã, a linha Genghis Khan, ainda não havia conquistado êxito.


Durante o meeting do dia 8 de abril de 1945, o General George Price Hays, comandante da 10ª Divisão de Infantaria de Montanha, pergunta ao General Mascarenhas de Moraes se os brasileiros tinham a certeza que poderiam conquistar Montese. Mascarenhas estava diante de oficiais generais americanos experientes, o próprio General Hays era possuidor da medalha de Honra, conquistada durante a Primeira Guerra Mundial, mesmo assim, sem hesitar, ele afirma que a FEB cumpriria a missão. Estava dado o passo decisivo para a conquista do respeito dos comandantes americanos, para o reconhecimento do valor do soldado brasileiro. MONTESE entraria para a história militar brasileira, seriam nossos febianos que tomariam esta pequena cidade que dominava uma das posições mais importantes da linha defensiva alemã.


Ao sair desta reunião, Mascarenhas reúne seu estado-maior e apresenta a missão: conquistar Montese, apoiar a ultrapassagem da 10ª Divisão de Infantaria de Montanha e seguir em direção a Zocca-Vignola, protegendo o flanco esquerdo da Divisão de Montanha. Este desafio uniria todos os esforços da Força Expedicionária para enfrentar o inimigo, que dominava o terreno e possuía uma larga experiência em combate.


O resgate da Ofensiva da Primavera das tropas Aliadas na Itália estava nas mãos das tropas brasileiras.


O Tenente Coronel Castelo Branco, oficial de operações brasileiro, dá início aos preparativos para a conquista de Montese. O 1º Batalhão, do 11º Regimento de Infantaria, recebeu diversas missões e uma delas implicou em lançar patrulhas para levantar as posições inimigas. No dia 12 de abril, o Comandante da 1ª Companhia destacou o Sargento Max Wolf Filho, o melhor dos comandantes de patrulha da FEB, para reconhecer as posições à noroeste da linha de contato, na chamada “terra de ninguém”.


Militar de valor já reconhecido pelos seus superiores e pares, o Sgt Max Wolf organizou sua patrulha e saiu para cumprir sua missão, mas os alemães não entregariam suas posições sem um árduo combate. Experientes, diversos combatentes traziam nas suas fardas as condecorações da campanha alemã na Rússia. Os tedescos sabiam da importância da linha de defesa Genghis Khan e eles cobrariam um preço alto dos brasileiros. O Sargento Max Wolf Filho e seus homens não voltaram vivos desta missão.


O dia 14 de abril de 1945 foi o escolhido para o ataque, às 9 horas o 2º Batalhão iniciou seu movimento e segue para a cidade de Montese. Uma pesada concentração de fogos de artilharia havia sido desencadeada, causando a destruição de mais de 800 prédios e casas da vila. A paisagem em ruínas destacava mais um dos horrores da guerra, mesmo assim o ímpeto dos defensores não esmoreceu.


Entrincheirados nos meios dos destroços da cidade, as tropas nazistas não se afastaram e deram início ao combate mais sangrento da Força Expedicionária Brasileira. Às 11 horas e 45 minutos munições de morteiro sinalizaram o início da segunda fase. Neste momento, mais uma vez a determinação e a capacidade de liderança do Tenente Coronel Castello Branco se fez presente. Ao ver o impasse dos soldados americanos, que conduziam os blindados, e dos soldados brasileiros, Castello saiu do seu posto de observação e dirigiu-se próximo a linha de contato, organizando, pessoalmente, o movimento e determinando energicamente que sigam em frente e tomem a cidade.


Convicto em conquistar Montese ainda naquela jornada, o Oficial de Operações da FEB ordena que as tropas de apoio blindada americana transportem, sobre seus carros de combate, as tropas brasileiras, imprimindo velocidade ao movimento ofensivo causador de grande surpresa aos defensores tedescos.

Por volta das 15 horas uma mensagem chega ao Comando do IV Corpo de Exército Norte Americano, Montese havia caído.


Até o dia 17 a tropa brasileira, ainda sob fogo pesado da artilharia inimiga, teria que eliminar diversas resistências tedescas e completar a limpeza da cidade.

Montese estava conquistada. Era a primeira vitória da Ofensiva da Primavera, conquista esta que abria o eixo para a perseguição e eliminação das tropas nazi-facistas na Itália. No entanto, muito sangue brasileiro correu por aquelas ruas e vielas medievais, foram 426 baixas brasileiras entre mortos e feridos.


O General Crittenberger, Comandante das tropas aliadas na Itália, ressaltaria a vitória brasileira com as seguintes palavras: “ na jornada de ontem, 14 de abril, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho do seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade”.

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